A última gota era de sangue

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Além do cansaço físico de correr 500 maratonas em uma só noite, muita coisa acabou ficando dentro de nós depois do começo das revoltas de ontem no centro de São Paulo.

Também não estou falando do rombo na panturrilha do Daniel por conta de uma bomba de gás lacrimogêneo que estourou entre nós dois, ou mesmo os cacos de vidro que viajavam dentro do meu tênis e que foram descobertos só quando cheguei em casa.

Não. O que ficou dentro de nós foi a sensação de ter encontrado cara-a-cara com o verdadeiro medo.

A polícia é o símbolo ativo de um silêncio imposto pelo Estado. Fomos depredados, fisica e moralmente. Fomos restringidos dos nossos direitos e da nossa liberdade absoluta como seres humanos. Mas não vamos nos silenciar.

Muito já foi dito e temos muito para dizer. Então, vamos tentar aqui enquadrar tudo o que vimos ontem à noite, em uma lista rápida de acontecimentos feita com um único propósito: fazer com que você sinta um pouco como era estar lá.

– Quando a primeira bomba foi lançada na minha direção, eu estava na esquina da Rua Augusta com a Av. Paulista, em frente ao Conjunto Nacional. Eu estava conversando com duas moças que saíram do trabalho ali na esquina só para dar uma espiadinha no que estava acontecendo. Ironicamente, quando uma delas falou, “Ah, eu não confio muito na polícia…”, imediatamente ouvimos o zunido da cápsula da bomba de gás vindo em nossa direção. Cada um correu para um lado. Espero que elas estejam bem.

– Constantemente, policiais olhavam para as pessoas desesperadas correndo ou chorando, e riam. Sim, riam como psicopatas que se divertiam machucando o próximo. No fim, quando os manifestantes já estavam dispersos, ouvi policiais fazendo piada entre seus colegas: “Eu falei pro neguinho ali correr, o cara olhou pra trás e começou a correr, né? Ai eu atirei bem aqui na nuca”, ele aponta para as próprias costas, “E o cara caiu na hora!” E ria. Ria. Ria.

– Uma senhora estava dentro da sua própria loja, em uma das travessas da Paulista. Ela estava claramente apavorada, mas confiante que estaria segura dentro do seu espaço. A Tropa de Choque, inexplicavelmente, apontou sua arma para a velhinha e apertou o gatilho. Na correria, tudo o que deu para ver era a fumaceira que tinha tomado toda a lojinha.

– Uma mulher grávida estava chorando, não sabia o que fazer no meio de tantas pessoas correndo para todos os lados. A PM veio marchando, cassetete em mãos. Para a abominação de todos que estavam ali, sobrou borrachada também a grávida, que começou a correr como todos, ajudada pelos que estavam ali. Logo depois veio os estouros e o gás, mas a rua já tinha sido tomada pelo puro terror.

– Um grupo de manifestantes se reuniu na Alameda Santos. Me juntei a eles e travamos o trânsito, levando todos os carros que passavam ali para a Av. Paulista, tentando atrapalhar o avanço da Choque – curiosamente, eles não lançavam bombas ou avançavam nos manifestantes quando havia carros em volta. Estava tudo sendo feito pacificamente, muitos motoristas até apoiavam buzinando e lançando sinais de suporte. Deixávamos ônibus e táxis passarem também. Do nada, um sedan longo, com os vidros escuros, simplesmente começou a avançar para cima dos manifestantes e acelerou com tudo. Pelo menos cinco pessoas foram atropeladas. Ninguém conseguiu anotar a placa dessa vez. Mesmo assim, quando um dos manifestantes furiosamente correu atrás do veículo, todos os outros (até mesmo os feridos) pediram para deixar quieto: “Deixa passar! A nossa luta não é contra ele!”. Isso foi impressionante em muitos níveis.

– No fim da noite, quando os manifestantes estavam se arrastando para estações de metrô e pontos de ônibus, encontrei uma fileira enorme de motos da PM estacionadas na Paulista. Na hora, estava com a cabeça abaixada, olhando para o celular. Ao meu redor, pessoas que acabavam de sair do trampo depois de grande parte da confusão também andavam pela avenida, procurando a forma mais segura de voltar pra casa. Um dos policiais, sem qualquer tipo de provocação, começou a berrar para as pessoas que estavam andando ali: “Maconheiros! Vagabundos! Vocês têm tudo que apanhar!”. “O quê?!”, perguntou indignada uma mulher que estava por ali. “É isso aí, continua andando senão vai presa”. Todo mundo se afastou com receio, mas ninguém sabia porque ele estava falando aquilo. De onde vinha tanto ódio por parte deles?

– Para finalizar, mais um exemplo da sujeira e covardia cometida naquela noite: depois de tacar fogo em um punhado de lixo no meio da Paulista, vi três sujeitos vestidos com roupas civis correndo e rindo. Pensei, “Ah, só mais um grupo dessa galera que está bloqueando as ruas”. Para a minha total surpresa, os três se aproximaram de um dos caminhões enormes da Tropa de Choque e entraram. Eram agentes infiltrados no meio da multidão para causar tumulto. Eles estavam querendo forjar encrenca só para ter uma desculpa.

Assim foi a noite em que eu e milhares de paulistanos morreram um pouco por dentro.

A última gota era de sangue

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Além do cansaço físico de correr 500 maratonas em uma só noite, muita coisa acabou ficando dentro de nós depois do começo das revoltas de ontem no centro de São Paulo.

Também não estou falando do rombo na panturrilha do Daniel por conta de uma bomba de gás lacrimogêneo que estourou entre nós dois, ou mesmo os cacos de vidro que viajavam dentro do meu tênis e que foram descobertos só quando cheguei em casa.

Não. O que ficou dentro de nós foi a sensação de ter encontrado cara-a-cara com o verdadeiro medo.

A polícia é o símbolo ativo de um silêncio imposto pelo Estado. Fomos depredados, fisica e moralmente. Fomos restringidos dos nossos direitos e da nossa liberdade absoluta como seres humanos. Mas não vamos nos silenciar.

Muito já foi dito e temos muito para dizer. Então, vamos tentar aqui enquadrar tudo o que vimos ontem à noite, em uma lista rápida de acontecimentos feita com um único propósito: fazer com que você sinta um pouco como era estar lá.

– Quando a primeira bomba foi lançada na minha direção, eu estava na esquina da Rua Augusta com a Av. Paulista, em frente ao Conjunto Nacional. Eu estava conversando com duas moças que saíram do trabalho ali na esquina só para dar uma espiadinha no que estava acontecendo. Ironicamente, quando uma delas falou, “Ah, eu não confio muito na polícia…”, imediatamente ouvimos o zunido da cápsula da bomba de gás vindo em nossa direção. Cada um correu para um lado. Espero que elas estejam bem.

– Constantemente, policiais olhavam para as pessoas desesperadas correndo ou chorando, e riam. Sim, riam como psicopatas que se divertiam machucando o próximo. No fim, quando os manifestantes já estavam dispersos, ouvi policiais fazendo piada entre seus colegas: “Eu falei pro neguinho ali correr, o cara olhou pra trás e começou a correr, né? Ai eu atirei bem aqui na nuca”, ele aponta para as próprias costas, “E o cara caiu na hora!” E ria. Ria. Ria.

– Uma senhora estava dentro da sua própria loja, em uma das travessas da Paulista. Ela estava claramente apavorada, mas confiante que estaria segura dentro do seu espaço. A Tropa de Choque, inexplicavelmente, apontou sua arma para a velhinha e apertou o gatilho. Na correria, tudo o que deu para ver era a fumaceira que tinha tomado toda a lojinha.

– Uma mulher grávida estava chorando, não sabia o que fazer no meio de tantas pessoas correndo para todos os lados. A PM veio marchando, cassetete em mãos. Para a abominação de todos que estavam ali, sobrou borrachada também a grávida, que começou a correr como todos, ajudada pelos que estavam ali. Logo depois veio os estouros e o gás, mas a rua já tinha sido tomada pelo puro terror.

– Um grupo de manifestantes se reuniu na Alameda Santos. Me juntei a eles e travamos o trânsito, levando todos os carros que passavam ali para a Av. Paulista, tentando atrapalhar o avanço da Choque – curiosamente, eles não lançavam bombas ou avançavam nos manifestantes quando havia carros em volta. Estava tudo sendo feito pacificamente, muitos motoristas até apoiavam buzinando e lançando sinais de suporte. Deixávamos ônibus e táxis passarem também. Do nada, um sedan longo, com os vidros escuros, simplesmente começou a avançar para cima dos manifestantes e acelerou com tudo. Pelo menos cinco pessoas foram atropeladas. Ninguém conseguiu anotar a placa dessa vez. Mesmo assim, quando um dos manifestantes furiosamente correu atrás do veículo, todos os outros (até mesmo os feridos) pediram para deixar quieto: “Deixa passar! A nossa luta não é contra ele!”. Isso foi impressionante em muitos níveis.

– No fim da noite, quando os manifestantes estavam se arrastando para estações de metrô e pontos de ônibus, encontrei uma fileira enorme de motos da PM estacionadas na Paulista. Na hora, estava com a cabeça abaixada, olhando para o celular. Ao meu redor, pessoas que acabavam de sair do trampo depois de grande parte da confusão também andavam pela avenida, procurando a forma mais segura de voltar pra casa. Um dos policiais, sem qualquer tipo de provocação, começou a berrar para as pessoas que estavam andando ali: “Maconheiros! Vagabundos! Vocês têm tudo que apanhar!”. “O quê?!”, perguntou indignada uma mulher que estava por ali. “É isso aí, continua andando senão vai presa”. Todo mundo se afastou com receio, mas ninguém sabia porque ele estava falando aquilo. De onde vinha tanto ódio por parte deles?

– Para finalizar, mais um exemplo da sujeira e covardia cometida naquela noite: depois de tacar fogo em um punhado de lixo no meio da Paulista, vi três sujeitos vestidos com roupas civis correndo e rindo. Pensei, “Ah, só mais um grupo dessa galera que está bloqueando as ruas”. Para a minha total surpresa, os três se aproximaram de um dos caminhões enormes da Tropa de Choque e entraram. Eram agentes infiltrados no meio da multidão para causar tumulto. Eles estavam querendo forjar encrenca só para ter uma desculpa.

Assim foi a noite em que eu e milhares de paulistanos morreram um pouco por dentro.

 
  1. oddbeard reblogou esta postagem de maxreebo e acrescentou:
    #protesto #13/06/2013 #ogiganteacordou #violencia policial #policia para quem precisa
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  3. makeme-lol reblogou esta postagem de maxreebo
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    A última gota era de sangue -//- Além do cansaço físico de correr 500 maratonas em uma só noite, muita coisa acabou...
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